20 de dezembro de 2018

RESENHA | O Ódio Que Você Semeia – Angie Thomas

Livro: O Ódio Que Você Semeia
Autora: Angie Thomas
Tradução: Regiane Winarski
Editora: Galera Record
Páginas: 378
1º lugar na lista do New York Times. Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro contra o racismo em tempos tão cruéis e extremos Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.
Starr tem duas versões de si mesma. A primeira versão mora num bairro da periferia que é dominado por gangues e oprimido pela polícia, com seus pais e seus dois irmãos; lá ela ajuda seu pai no mercado da família, como qualquer outra adolescente. A segunda versão da Starr estuda em colégio particular, onde a maioria dos alunos, incluindo seu namorado e suas amigas, são brancos. Dividida entre esses dois mundos, Starr tenta levar uma vida normal, mas um dia, tudo deixa de ser normal.
Depois de sair de uma festa com seu amigo de infância Khalil, Starr e ele são parados pela polícia. Como seu pai um dia lhe ensinou, Starr ao ver o policial, coloca as mãos no painel do carro para que o policia possa ver, faz tudo o que ele pede e só diz algo se o policial perguntar. Ela espera que seu amigos saiba todas essas instruções também. Porém, com uma escova de cabelo nas mãos, Khalil é morto a tiros por aquele policial que achava que o que ele tinha nas mãos era uma arma. Mas não era. Khalil estava desarmado e foi vítima do racismo policial que enxerga a cor negra como uma arma em si. Agora, sendo a única testemunha, Starr vai sentir a pressão das suas duas versões, como se elas tivessem se colidindo e o que ela disser ou o que não disser fará total diferença para o julgamento da morte de Khalil que virou manchete em todos os jornais. Starr quer justiça, porém ela pode logo aprender que a justiça é cega e por isso, ela precisa encontrar a sua voz. Precisa lutar.
Se acompanham o blog, sabem que neste ano li livros verdadeiramente impactantes para mim e por isso, era difícil achar um que conseguisse superar. Mas encontrei. O ódio que você semeia conseguiu não só superar várias histórias maravilhosas que li, mas também me fez sentir ansiedade em acompanhar a luta desta protagonista que nos leva por toda a sua história.
"Já vi acontecer um monte de vezes: uma pessoa negra é morta só por negra e o mundo vira um inferno. Já usei hashtags de luto no Twitter, repostei fotos no Tumblr e assinei todos os abaixo-assinados que vi por aí. Eu sempre disse que, se viesse acontecer com alguém, minha voz seria a mais alta e garantiria que o mundo soubesse o que aconteceu.
Agora, sou essa pessoa, e estou morrendo de medo de falar."
Temos Starr. A nossa protagonista. Esta é a história dela. Por que estou falando isto? Porque O ódio que você semeia é um livro com muitos personagens coadjuvantes e muitos com muita importância para a história, porém, Starr consegue se manter como a protagonista. Então, é difícil encontrar um leitor que vá falar que acabou se conectando mais com um personagem coadjuvante, porque Starr é uma protagonista que realmente nos faz querer acompanhar a sua história.
"Funerais não são para gente morta. São para os vivos."
Vivendo entre esses dois mundos totalmente diferentes – o lugar onde mora e a escola onde estuda –, percebemos que ela é uma adolescente, aparentemente comum, mas que por causa das suas experiência, acaba crescendo e se desenvolvendo a cada capítulo. Esta luta contra o racismo é algo do qual ela sabe que existe e talvez até faça algo para ajudar, mas quando ela se envolve mesmo, vai percebendo cada vez mais em si a vontade de lutar. Não só por Khalil que foi morto por ser negro. Mas por todos os negros que dia após dias são julgados pela cor da sua pele.
"Às vezes, você pode fazer tudo certo, e mesmo assim as coisas dão errado. O importante é nunca parar de fazer o certo." 
Na maior parte das vezes, os Best-Sellers americanos protagonizados por personagens jovens se concentram em uma relacionamento amoroso e nas amizades do protagonista, muitas vezes só mencionando a família. Aqui não. Neste livro, temos sim um romance, amizades, mas temos o desenvolvimento de uma família, o que é muito bom porque a realidade de um adolescente envolve sua família e, bem, a família de Starr são alguns dos personagens coadjuvantes que são muito importantes para a história e que mesmo não roubando o espaço da protagonista, ainda conseguem fazer o leitor se identificar com eles.
"– Khalil disse que é sobre o que a sociedade semeia em nós quando pequeno e como isso volta e os morde depois – digo. – Mas acho que é mais do que quando pequenos. Acho que é o ódio que semeiam, ponto.
– Nós quem? – pergunta ele.
– As pessoas negras, as minorias, os pobres. Todo mundo na parte de baixo da sociedade.
– Os oprimidos – diz papai." 
Para não dizer em todas, na maioria das resenhas com críticas positivas, eu sempre ressalto o quão bom é sentir que, independente do gênero, os sentimentos e as emoções que a histórias passam são reais e com O ódio que você semeia temos isso, mas temos algo a mais. Temos uma história onde tudo é muito real e muito palpável. Temos personagens com vidas reais, sentimentos reais e situações reais. A autora está falando de racismo e conseguimos ver o quão verdadeiro é porque casos de racismo acontece todos os dias, está em todos os jornais e infelizmente, muitas vezes, está na nossa cara.
"– Exatamente. As drogas vêm de algum lugar e estão destruindo nossa comunidade – diz ele. — Tem gente como Brenda, que acha que precisa delas para sobreviver, e tem os Khalils, que acham que precisam vendê-las para sobreviver. As Brendas não conseguem emprego se não tiverem limpas, e não podem pagar reabilitação se não tiverem emprego. Quando os Khalils são presos por venderem drogas, eles passam a maior parte da vida na prisão, outra indústria de bilhões de dólares, ou tem uma dificuldade enorme para conseguir um emprego e muitas vezes acabam vendendo drogas de novo. Esse é o ódio que estão semeando, filha, um sistema elaborado contra nós. Essa é a vida bandida, a vida marginal, a Thug Life."
Provavelmente um dos melhores livros que já li na minha vida, eu realmente amei todo o andamento da história, novamente porque, por mais dolorosa e triste que seja a realidade, a autora conseguiu ser real a ela e ainda passar todas as mensagens que desejava com esta história. Ela representou cada detalhe com muita verdade e não condenou nenhum dos lados, apenas mostrou a realidade deles. A realidade do lado bom e ruim das periferias e também da polícia.
"– Você gostaria que mais policiais não fizessem suposições sobre pessoas negras? – esclarece ela.
— Isso mesmo. Isso tudo aconteceu porque ele – não consigo dizer o nome dele – supôs que não tínhamos boas intenções. Porque somos negros e por causa de onde moramos. Nós só éramos dois adolescentes vivendo, sabe? A suposição dele matou Khalil. Poderia ter me matado."
Sendo este o seu livro de estreia, é também o primeiro livro da autora que leio e acho que ela já lançou outro e espero lê-lo logo. Fiquei impactada com a história, com o desenvolvimento e com a escrita da escritora, Angie Thomas, que claramente sabe muito bem conduzir uma história para que a cada capítulo, o leitor deseje continuar lendo, até o momento em que vira a última página e então deseja poder continuar acompanhando a luta de Starr para sempre.
"Quando uma pessoa luta, se expõe, sem se importar quem machuca nem se vai machucar também.
Então, dou mais um soco, bem em Um-Quinze.
– Eu perguntaria se ele gostaria de ter atirado em mim também."
O ódio que você semeia é um livro que merece todos os adjetivos possíveis, ao mesmo tempo em que nenhuma palavra parece boa o suficiente para descrevê-lo. É uma história emocionante e cruel porque joga na nossa cara uma realidade que muitas vezes fingimos não ver. É também uma história inspiradora para que cada um de nós, assim como Starr, também lute para que um dia essa realidade cruel não passe de uma dolorosa lembrança. Ler O ódio que você semeia faz qualquer um sentir a garganta se fechando e olhos se enchendo de lágrimas porque se tem algo que posso falar sobre esta história é que ela é realmente magnífica.
"Era uma vez um garoto de olhos castanhos e covinhas. Eu o chamava de Khalil. O mundo o chamava de bandido.
Ele viveu, mas não por tempo suficiente, e, pelo resto da minha vida, vou me lembrar de como ele morreu.
Conto de fadas? Não. Mas não vou desistir de um final melhor."

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11 comentários:

  1. Oi, Gabi!
    Eu amei demais esse livro! E estava super ansiosa para assistir a adaptação no cinema, mas uma pena que não estreou aqui :(
    Beijos
    Balaio de Babados
    Natal Literário 2018: 5 kits, 10 ganhadores. Participe!

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  2. Oi, Gabs
    Eu ainda não pude conferir esse livro mas estou eufórica para conhecer essa história. A adaptação também não vi ainda, tô atrasada com tudo afff mas vou tentar até o finalzinho de Janeiro.

    Beijo!
    http://www.capitulotreze.com.br

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  3. Oi, Gabi! Como vai?
    Nossa, eu quero tanto ler esse livro. Se antes já tinha vontade, agora depois da sua resenha a vontade aumentou.
    Parece ser um livro incrível, desses que faz a gente refletir bastante. Excelente resenha! Amei.

    Beijos! Dear Masen

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  4. Oiii Gabi

    mente também é um dos melhores livros que li na vida. A narrativa, o impacto da mensagem que traz, os personagens mega carismáticos e autênticos, tudo é perfeito. Estou curiosa em conferir agora a adaptação

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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  5. Olá, Gabi.
    Estou achando que vai terminar o ano e não vou conseguir ler esse livro. Mas ele será um dos primeiros que vou comprar o ano que vem. Eu julgo um livor pelos sentimentos que ele me faz ter durante a leitura e esse pelo jeito transborda sentimentos.

    Prefácio

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  6. Oi Gabi,
    Esse livro é maravilhoso! Um dos melhores que li esse ano.
    Super intenso e necessário.
    Quero ainda assistir o filme, uma pena que não teve muita distribuição aqui no Brasil.
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br

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  7. Eu estava com um pouco de vontade de ler esse livro, mas, depois da sua resenha não tenho mais vontade, tenho NECESSIDADE de ler esse livro.

    Nanda, Gravado na Memória

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  8. Meu Deus do céu, a cada dia que passa eu tenho mais certeza que estou perdendo tempo porque ainda não li esse livro. É cada resenha linda e positiva que eu leio que só aguça mais a minha vontade. Inclusive, amei o que você escreveu. É uma realidade que eu não vivencio, mas que tenho consciência que ocorre. Ler sobre isso vai ser chocante, mas acho que vai travar uma reflexão importante para mim. Bem, amei!
    Beijos

    Our Constellations

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  9. Oi, Gabi

    Eu coloquei o livro no meu projeto de leitura do ano que vem. Recebi o exemplar recentemente, mas não consegui ler, infelizmente.
    É um livro que com certeza vai mexer comigo, assim como mexeu com você. É uma história real mesmo, e isso é o que mais dói e causa revolta!
    Uma pena que o filme não tenha tido uma distribuição maciça por aqui... e com certeza essa falta de divulgação não foi coincidência: a verdade dói!

    Beijos e Feliz Natal
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  10. Oie
    Já tenho este livro no kindle, mas ainda não li. Sei que é um tema impactante e quero muito assistir ao filme. Adorei sua resenha bem escrita e as fotos lindas como sempre.

    Beijinhos
    https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com/

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  11. Oi Gabi!
    Eu adorei tanto qnt vc a leitura desse livro, a história é muito necessária!
    Quero ver o filme em breve!
    Bjs e feliz natal!
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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